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Dormir com lentes de contato: quais os riscos dessa atitude?

Dormir com lentes de contato: quais os riscos dessa atitude?

Será que pode dormir com lentes de contato? Essa é uma dúvida muito comum entre as pessoas que fazem uso delas, mas, mesmo sem saber ao certo a resposta, há quem já passou uma noite de sono sem tirá-las dos olhos.

Entre os principais cuidados para quem usa as lentes estão as precauções higiênicas das mãos, assim como a forma adequada de condicionamento. Esses pontos de atenção são essenciais, porém, dormir com elas nos olhos também é algo com que você deve se preocupar.

Será que esse hábito realmente provoca danos? Quais os riscos de dormir com lentes de contato? Continue lendo para ver a resposta dessas perguntas e outras informações importantes para desfrutar somente dos benefícios que as lentes de contato trazem.

Por que não se pode dormir com lentes de contato?

É verdade que as lentes de contato são desenvolvidas de modo que se acomodem com perfeição nos olhos, sem provocar incômodos para quem as utiliza. No entanto, não se pode dormir com lentes de contato porque, querendo ou não, trata-se de um objeto estranho para o corpo.

Como o globo ocular é muito sensível, o recomendado é que, mesmo durante o dia, a lente seja retirada após 8-10 horas de uso para permitir o descanso. Quando chega a noite, a dinâmica do organismo nessa região é diferente. Há uma redução da lubrificação dos olhos e, com isso, o aumento da suscetibilidade para irritações.

A seguir apresentamos alguns problemas que podem ser desencadeados por essa atitude. Continue lendo e você entenderá ao certo por que não se pode dormir com as lentes de contato e os riscos que isso oferece.

Falta de lubrificação

Durante o dia, quando os olhos estão abertos, as córneas recebem oxigênio por meio de trocas gasosas diretamente com o ar. Com o ato de piscar, elas são periodicamente lubrificadas. Por sua vez, quando os olhos permanecem fechados durante o sono, essa troca não ocorre. Nessa condição, a nutrição da córnea é proveniente de um fluido conhecido como humor aquoso.

Com a utilização de lentes de contato, tudo fica diferente. O ato de piscar realiza um movimento mínimo de deslocamento da lente, mas suficiente para que a lágrima promova a oxigenação da córnea. Porém, ao dormir com as lentes, não ocorre a necessária lubrificação da córnea, resultando em uma oxigenação reduzida (hipóxia) da superfície dela.

Inflamação

A falta de lubrificação e oxigenação adequada da córnea pode levar à ceratite, que é uma inflamação bem conhecida dos oftalmologistas. A ceratite não é exclusiva do uso de lentes de contato, mas sua incidência é muito maior nas pessoas que se descuidam de retirá-las antes de dormir. Os sintomas dessa inflamação incluem:

  • vermelhidão dos olhos;
  • sensação de corpo estranho;
  • lacrimejamento;
  • visão turva;
  • fotofobia (desconforto com a luz);
  • dor.

Por sua vez, a ceratite pode abrir caminho para infecções sérias e tornar a situação ainda mais perigosa para a saúde ocular. Nesses casos, bactérias e fungos invadem os tecidos, o que exige tratamentos específicos para cada situação, conforme o agente infectante.

Infecção ocular

O uso contínuo e prolongado de lentes de contato, como durante uma noite de sono, pode levar a infecções na córnea, entre elas, a ceratite bacteriana.

Essa infecção ocular pode ser tratada e tem cura, mas o tratamento deve ser iniciado rapidamente. Na verdade, essa condição é considerada uma urgência oftalmológica, porque não tratá-la pode resultar em perfuração da córnea. Com isso, o problema se propaga para outras partes do olho, com sérios riscos para a capacidade visual.

Outra possibilidade de infecção ocular pelo uso contínuo de lentes de contato é causada por uma ameba de nome Acanthamoeba keratitis. Trata-se de um microrganismo (protozoário) muito comum, encontrado em corpos d’água (rios e lagos) e em lugares úmidos.

No entanto, ambientes como piscinas e áreas de hidromassagem também podem ser abrigos desse parasita. Por essa razão, é recomendado todo o cuidado para uma adequada desinfecção das lentes, assim como no seu acondicionamento quando em locais como praias e piscinas.

Úlcera

Também não se pode dormir com lentes de contato, porque isso pode levar à formação de úlceras, com sérios riscos para a visão. A úlcera de córnea é uma ferida aberta na superfície ocular, como uma erosão. Ela pode ser superficial, atingindo apenas as camadas mais externas da córnea, ou mais séria e perfurar os tecidos.

Sua ocorrência requer uma abordagem emergencial para o tratamento. Quase sempre, serão necessárias algumas consultas com o oftalmologista, dependendo de cada caso. Conforme o tempo transcorrido do início da ulceração, o tamanho alcançado e a gravidade do caso é abordado um tipo de terapia.

O tratamento poderá ser à base de colírios antibióticos, curativos oftálmicos e uso de lentes terapêuticas, nos casos mais leves. Situações mais severas, no entanto, podem requerer procedimentos cirúrgicos.

Abrasão

Outro risco a que se expõe quem dorme com lentes é a ocorrência de abrasão (arranhões) na superfície da córnea. Como a interface entre a lente e ela não é lubrificada durante o sono, a ausência de hidratação gera a possibilidade de atrito entre as partes em contato.

Dessa forma, a própria lente pode ser a causadora da abrasão corneana. No entanto, podem existir outras causas para os arranhões da córnea, como um corpo estranho (cisco, areia) ou um trauma no olho.

Os sintomas mais comuns desse problema são vermelhidão nos olhos, lacrimejamento, visão embaçada e dor. Normalmente, não se trata de uma lesão grave que exige grande intervenção, podendo ser curada em 2 ou 3 dias.

Medidas domésticas podem ser tomadas no primeiro momento, como o uso de compressas geladas sobre o olho atingido. De todo modo, é importante a consulta com o oftalmologista para um diagnóstico preciso e para um tratamento adequado, sempre evitando a automedicação.

Irritação

Os olhos também podem ficar irritados quando dormimos com a lente de contato. Quando isso acontece com o globo ocular, percebemos sinais como vermelhidão, coceira e lacrimejamento.

As lentes causam esse problema porque dificultam a oxigenação dos olhos. Também em função do atrito provocado pelo contato constante com o globo ocular e pela falta de lubrificação. Além disso, a irritação pode ser uma resposta aos produtos utilizados para higienizar a lente.

Aderência da lente

As lentes de contato precisam se manter constantemente lubrificadas, por isso, elas têm a propriedade de absorver a umidade, como acontece com uma folha de papel, por exemplo. Nesse caso, são as lágrimas que mantêm a hidratação do material.

No entanto, conforme explicamos, durante a noite a lubrificação natural dos olhos reduz significativamente. Por isso, há uma tendência para que as lentes fiquem ressecadas e, como consequência, elas podem aderir à superfície do globo ocular causando dificuldade em removê-las.

Conjuntivite tóxica

Você também não pode dormir com lentes de contato, porque existe a possibilidade de desenvolver uma conjuntivite tóxica. Mas o problema não está na lente em si, e sim nos produtos que são utilizados para fazer a sua higienização.

O ideal, conforme explicamos, é que as lentes permaneçam no máximo 8 -10 horas em contato com os olhos. Exceder esse tempo, além de todos os problemas que citamos, pode fazer com que o globo ocular tenha uma reação alérgica aos produtos utilizados, manifestando a conjuntivite.

Como cuidar das lentes de contato antes de dormir?

Como não se deve dormir com lentes de contato, deixamos algumas dicas recomendações sobre o que você deve fazer quando chegar o seu momento de descanso, para preservar as lentes corretamente e garantir o cuidado com seus olhos. Confira:

  • lave bem suas mãos antes de retirar a lente dos olhos. Essa medida é fundamental para evitar a transferência de micro-organismos nocivos;
  • depois de retirar a lente, faça a higienização dela. Em nenhum momento utilize soro fisiológico ou água, pois somente as soluções específicas para lentes de contato são eficazes;
  • armazene a lente de contato no estojo dela, mas tenha o cuidado de também higienizar esse objeto, pois ele pode acumular microorganismos;
  • não guarde suas lentes de contato no banheiro, pois esse é um ambiente muito contaminado que pode transmitir bactérias e outros agentes patógenos.

Como colocar as lentes de contato?

No dia seguinte, você precisará recolocar as suas lentes para começar a rotina, certo? Mas para que elas fiquem bem posicionadas e não ofereçam nenhum risco para os seus olhos é preciso seguir um passo a passo básico. Veja algumas medidas que podem tornar esse processo muito mais seguro e prático.

1º Passo: Higienize suas mãos

Antes de tocar nas lentes de contato higienize muito bem as suas mãos. Prefira sabonetes sem perfume e que tenham ação antibacteriana. Seque as suas mãos com uma toalha ou outro material que não solte fiapos.

2º Passo: Verifique a posição da lente e faça a limpeza

Coloque a lente de contato na ponta do seu dedo e observe se ela está na posição correta. Limpe com a solução adequada para lentes. Se as bordas estiverem apontando ligeiramente para fora, isso significa que está invertida, ou seja, no avesso. Se for esse o caso, corrija a posição.

3º Passo: Segure a lente e as pálpebras corretamente

Posicione a lente de contato no dedo indicador da mão que você tiver mais coordenação motora, e com os outros dedos, segure a pálpebra inferior. Com a outra mão, segure a pálpebra superior para evitar que você pisque.

4º Passo: Posicione a lente no olho

Para colocar a lente, olhe ligeiramente para cima e posicione-a na parte branca do globo ocular. Lentamente, solte a sua pálpebra, feche os olhos por alguns momentos e, em seguida, pisque várias vezes para que a lente centralize sozinha. Repita esses passos com o outro olho.

Recomendações extras

Procure reservar um tempo maior em suas manhãs para colocar a lente de contato até que você adquira prática e destreza para fazer isso mais rápido. Não tenha pressa no começo para que você não machuque seus olhos nem danifique as lentes.

Fique atento aos riscos e cuidados ao usar lentes de contato sem orientação médica. Além do descuido de não retirá-las antes de dormir, a falta de higienização eficiente delas e das mãos pode causar infecções sérios, como a ceratite bacteriana. Do mesmo modo, as perfurações ulcerosas, quando não tratadas em tempo hábil, podem levar à cegueira.

Não se pode dormir com lentes de contato porque os riscos são muitos e podem ser graves a ponto de conduzir à perda da visão. Portanto, não descuide da higiene nem se esqueça de retirá-las e guardá-las devidamente antes de qualquer cochilo.

Para complementar essas informações, confira 7 cuidados que você deve ter com as lentes de contato para garantir a integridade delas e a proteção dos seus olhos!

Dra. Thais Mendes

Dra. Thais Mendes

Médica Oftalmologista; Especialista em Retina Clínica e Cirúrgica; Aluna de pós-graduação/doutorado UNIFESP-EPM; Retina Research Fellowship (University of California San Francisco 2012-2014); Membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia e da Sociedade Brasileira de Retina e Vítreo. Fellowship Clínico e Cirúrgico em Retina e Vítreo (Instituto Suel Abujamra 2009-2012); Fellowship de Ultrassom Ocular (Santa Casa de São Paulo 2011-2012).

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